domingo, 31 de julho de 2011

A diferença sutil entre reforço e contratação, e a questão: o campeonato irá melhorar após a janela?

A janela de meio de ano tradicionalmente representa mais uma ameaça aos times brasileiros do que uma esperança de melhorias. Neste ano a realidade foi um pouco diferente, como se nota na lista de contratações e vendas a seguir:

*Obs: selecionei apenas os nomes que, na minha opinião, têm qualidade para pelo menos serem úteis aos clubes de destino
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QUEM ENTRA
Atlético-MG: André (ATA – Bordeaux)
Atlético-PR: Rodriguinho (ATA – Fluminese); Edilson (LD – Grêmio)
Botafogo: Gustavo (ZAG – Lecce); Felipe Menezes (MEI – Benfica); Renato (MEI – Sevilla); Elkeson (MEI/ATA – Vitória)
Corinthians: Ramon (LE – Vasco); Emerson (ATA – Sem clube); Alex (MEI – Spartak Moscou)
Cruzeiro: Cribari (ZAG – Napoli); Charles (MEI – Santos)
Flamengo: Alex Silva (ZAG – Hamburgo); Airton (VOL – Benfica); Junior César (LE – São Paulo)
Fluminense: Rafael Sóbis (ATA – Internacional); Ciro (ATA – Sport); Martinuccio (ATA – Peñarol)
Grêmio: Gilberto Silva (VOL – Panathinaikos); Marquinhos (MEI – Avaí); Miralles (ATA – Colo Colo)
Internacional: Sandro Silva (VOL – Málaga); Jô (ATA – Manchester City)
Palmeiras: Henrique (ZAG – Barcelona); Maikon Leite (ATA – Santos)
Santos: Ibson (MEI – Spartak Moscou); Henrique (VOL/MEI – Cruzeiro); Alan Kardec (ATA – Benfica); Borges (ATA – Grêmio)
São Paulo: Denilson (VOL – Arsenal); Cícero (MEI – Wolfsburg); Píris (ZAG/LD – Cerro Porteño)
Vasco: Juninho Pernambucano (MEI – Al Gharafa); Renato Silva (ZAG – Shandong Luneng)

QUEM SAI:
Corinthians: Dentinho (MEI/ATA - Shaktar Donetsk); Bruno César (MEI – Benfica)
Cruzeiro: Henrique (VOL/MEI – Santos)
Fluminense: Conca (MEI – Guangzhou)
Grêmio: Borges (ATA – Santos)
Palmeiras: Danilo (ZAG – Udinese)
Santos: Jonathan (LD – Inter de Milão); Alan Patrik (MEI - Shaktar Donetsk); Maikon Leite (ATA – Palmeiras); Zé Eduardo (ATA – Genoa)
São Paulo: Rodrigo Souto (VOL – Jubilo Iwata); Junior César (LE – Flamengo); Miranda (ZAG – Atlético de Madrid)
Vasco: Ramon (LE – Corinthians)

O que se nota ao observar essas listas é que as perdas foram repostas de maneira geral com uma contratação de mesma qualidade. A questão que proponho é a seguinte: ao colocar na balança, quais destas contratações efetivamente contribuirão para melhorar a qualidade técnica geral do time?

A meu ver, seis. A chegada de Renato ao Botafogo, juntamente com os demais bons jogadores que formam seu elenco, colocou o clube na posição de brigar realmente por uma vaga na Libertadores até o final do campeonato. Alex foi certamente uma das grandes contratações desta janela, vale ressaltar que foi lembrado até mesmo por Dunga em quatro ocasiões. O Flamengo possui uma dupla de zaga apenas mediana, e a chegada de Alex Silva certamente dará maior estabilidade ao time carioca, até mesmo para elevar a média de altura da equipe (acredito que ele poderá novamente atuar em bom nível, ao contrário do final dessa sua segunda passagem pelo São Paulo). Se isso vale para o time rubro-negro, para o Palmeiras a perda de Danilo possivelmente não será tão sentida: Henrique já demonstrou sua qualidade na curta passagem em que conquistou o título paulista. Outro Henrique, o volante/meia do Cruzeiro, tem se destacado desde o ano passado, recebendo inclusive propostas da Europa (a Fiorentina investiu no jogador em mais de uma ocasião), e foi uma contratação que realmente me surpreendeu.

E chegamos ao último e acredito que seja o maior dos reforços desta janela. Denilson chegou ao São Paulo sem um terço da badalação de outras, como a de Alex e Renato, por exemplo. Mas, se o volante já destacou em outras temporadas no duríssimo campeonato inglês, é muito provável que seu futebol destoe positivamente no futebol brasileiro. A minha convicção pode soar exagerada, mas note como cada vez mais os volantes ditam o ritmo das partidas, muito mais do que os meias propriamente ditos, girando a bola pelos lados, alternando os momentos de verticalização, etc. Essa qualidade Denilson tem (veja o interessante artigo “A razão pela qual Arsene Wenger adora Denilson”).

Ainda assim, seis reforços de fato entre os vinte clubes da série A são um número baixo para o campeonato que esperamos. E que pode confirmar o que se discute e foi tema abordado inclusive neste blog: será que esta será a pior edição do Campeonato Brasileiro da era dos pontos corridos?

Nota: parece até uma contradição levantar essa questão depois do histórico Santos x Flamengo do meio da semana, mas garanto: falarei sobre isto futuramente.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Como o tal futebol está ficando chato!

Não bastassem punições para jogadores que nem foram advertidos com cartão amarelo durante os 90 minutos ou punir as equipes com perdas de mandos de campos por excessos de vandalismo de torcedores adversários, o STJD extrapola todos os limites com as possíveis punições de Kléber, Thiago Neves e Ronaldinho.

A atitude do Gladiador até pode ser questionável por tudo que envolve o fair play. Mas trata-se de uma escolha em que na maioria das vezes a hipocrisia (como o próprio Kléber classificou o “jogo limpo”) é acionada e se devolve uma bola ou se paralisa uma jogada. Quantas vezes não passa de uma simulação e a lealdade é completamente esquecida ao receber uma boa ação! O fair play não é uma regra, é opcional.

Kléber escolheu não agir para inglês ver e não deveria ser julgado. É um jogador autêntico (e como sofre por isto!). O futebol atualmente é tão sujo fora das quatro linhas e se faz toda essa tempestade por uma jogada que serve para desestabilizar o adversário - o psicológico e a inteligência fazem parte de qualquer esporte. Não fez o gol, mas o simples fato de mobilizar os 11 flamenguistas em campo podia render cartões e nervosismo ao se executar as jogadas.

Já as situações de Thiago Neves e Ronaldinho beiram o ridículo. Creio que no momento de se planejar para um disputadíssimo Campeonato Brasileiro, as equipes têm em mente onde estão os pontos perdidos e os pontos “fáceis”. Thiago Neves apenas externou que para o Flamengo (candidato ao título) é melhor ficar sem seus dois principais jogadores diante do fraquíssimo Ceará jogando em casa do que em jogos diante de Santos, Grêmio e Cruzeiro.

O empate no jogo de sábado pouca importa, não significa que o Flamengo se planejou mal. Significa que não cumpriu o dever de casa, ao não vencer o time cearense. Porque o jogador não pode ser sincero? Não é aceitável o Flamengo seja prejudicado uma rodada sequer sem os dois meias apenas porque Thiago Neves resolveu contar a todos que agiu com inteligência. Isto é apenas bom senso, não se trata de trapacear por trapacear, mas sim buscar ser competitivo de acordo com as ferramentas que possui.

Além destes casos, me chamou atenção a declaração de Dagoberto após o empate com o Atlético-GO: “Se eu peidar aqui é polêmico”. Mostra a revolta de um jogador que participou de 40% dos gols da equipe no campeonato e vê sua defesa não colaborar na campanha de seu time. Dagoberto sabe que se for sincero novamente (assim como foi ao classificar o time como limitado em rodadas anteriores) será mais uma vez cobrado, pode ter desconto em seu salário e será visto como a ovelha negra. No futebol não se aceita críticas construtivas, às vezes não se aceita a dura e simples verdade.

Cada ano que passa leva consigo um pouco da emoção que ainda resta no futebol, já que a interferência extra campo começou a ditar resultados (vide a perda do título brasileiro pelo São Paulo em 2009 graças as punições do STJD). Campeonatos não são feitos apenas de gols, defesas e dribles, mas sim de toda uma atmosfera que envolve diversos ingredientes. Os torcedores não querem ver robôs seguindo sempre as mesmas regras ou atitudes. O agir diferente, declarações ou desabafos devem fazer parte dos jogos (inclusive pré e pós). Sem isto, o futebol se iguala a uma partida de vídeo game em que tudo é pré-programado.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O título do Uruguai não marca seu renascimento: marca sua consolidação

Não irei comentar a conquista do título da Copa América pelo Uruguai, creio que esse assunto já foi devida e precisamente analisado anteriormente (veja aqui). Vou me ater em apenas um ponto: a duração do trabalho.

A continuidade de um trabalho pode não ser o fator decisivo para o sucesso, mas certamente é uma evidência ou prenúncio para isso. Embora essa ponderação tenha inúmeros exemplos como fundamento (cito alguns da História recente abaixo), no meio do futebol persiste a ideia de que a responsabilidade dos insucessos é majoritariamente do treinador.

Voltemos à Copa do Mundo de 2010. Dos quatro semifinalistas, Alemanha e Uruguai tinham seus trabalhos conduzidos desde 2006. Se os outros dois – Espanha e Holanda – tinham trocado de comando após a Eurocopa de 2008, a continuidade era evidente: tanto nos times-bases das equipes, como na própria estrutura tática, mantida até o embate dos dois na final do mundial.

O próprio Brasil serve de exemplo. Teve um início de trabalho na era Dunga muito difícil, com uma Copa América medíocre, ofuscada pelo título no confronto na final contra a Argentina – diga-se, a primeira e rara boa apresentação da seleção sob o comando do técnico. Na sequência, eliminatórias medianas, e a Copa das Confederações, em que o time criou identidade e assimilou as características que o tornaram competitivo, ainda que sem brilho.

Exemplos menos expressivos, mas caseiros, também ilustram o que pode render um trabalho de longo prazo. O Coritinhians teve um final de ano de 2010 frustrante, com a perda do título e a necessidade da disputa da pré-Libertadores de 2011. Veio com esta a última o pivô de um de seus maiores fracassos: a eliminação precoce do torneio sulamericano. Tite, no entanto, foi mantido, até mesmo depois da derrota na final do Paulista para o Santos. Hoje, mesmo que seja cedo para afirmar, o time paulista lidera o Brasileirão e é um dos favoritos à conquista.

Sou contra a interrupção de um trabalho sem o tempo necessário para desenvolvê-lo. A conquista da Copa América pelo Uruguai endossa minha lista para inferir que um trabalho duradouro é parte essencial para se atingir feitos que hoje parecem inalcançáveis.

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A seleção uruguaia, se permite um exercício de análise da trajetória no passado, permite também projeções interessantes.

Os principais jogadores – Diego Lugano, Álvaro Pereira, Diego Forlán, Edinson Cavani e Luis Suárez – terão, respectivamente, 32, 29, 35, 27 e 27 anos em 2014. Poderão ser a base da seleção nesta Copa, mesclando-se a jogadores mais jovens (o próprio Sebastián Coates, revelação da Copa América). E poderão formar mais uma equipe competitiva no cenário mundial.

Um trabalho mais duradouro do que se poderia imaginar.

domingo, 24 de julho de 2011

O merecido título da melhor seleção da América do Sul

Há 2 anos apenas a quinta seleção sulamericana, uma repescagem contra a Costa Rica (depois de duas repescagens contra a Australia) e poucos votos de confiança num time que tinha tudo para ser eliminado já na primeira fase de um dos grupos mais equilibrados da Copa do Mundo.

Após uma participação memorável com direito a um merecido quarto lugar e com o melhor jogador da Copa, o Uruguai vence a Copa América e se consolida como a melhor seleção da América do Sul. Uma seleção que não se destaca por jogadores excepcionais, mas principalmente pela raça, pela aplicação e união do grupo, sem abdicar de técnica e belas jogadas em seu jogo.

Lugano já comentou em entrevistas que justamente as dúvidas sobre o potencial da Celeste foram o fator chave para união e crescimento da equipe. É impressionante como a seleção uruguaia se entrega em campo e expande isto pelas arquibancadas. Não tem como negar que é a seleção que mais demonstra jogar por um ideal. Veja o que o próprio capitão declarou antes da final:

“A gente está valorizando muito esse trabalho. Valorizando o amor que a gente coloca na seleção. Queremos dar ao povo algo para comemorar e para se sentir orgulho e mostrar que o Uruguai não vive só de história, mas também do presente.”

Diego Lugano comemorando a conquista da Copa América

Enquanto a Argentina aguarda Messi desencantar e o Brasil não consegue formar um time mesmo com tantos craques surgindo a cada ano, o Uruguai volta ao cenário mundial. Volta empolgando comentaristas e torcedores!

Óscar Tábarez tem grandes méritos na “ressurreição” uruguaia! Pelo que me parece trabalha como um gestor de futebol. A orientação sobre os jogadores, o olhar para o investimento na base e a capacidade de transformar toda vontade de seus comandados em resultados credenciam este como um dos melhores trabalhos de treinadores no futebol mundial.

Analisem as convocações realizadas por Tábarez (técnico há mais tempo no comando de uma seleção sulamericana, desde 2006) para a repescagem contra a Costa Rica, para a Copa do Mundo do ano passado e para a Copa América 2011.

REPESCAGEM DA COPA DO MUNDO 2010:

Goleiros: Juan Castillo e Fernando Muslera

Defensores: Martín Cáceres, Carlos Valdez, Mauricio Victorino, Diego Lugano, Diego Godín, Andrés Scotti, Bruno Silva e Juan Manuel Díaz

Meias: Alvaro Pereira, Maximiliano Pereira, Alvaro Fernández, Sebastián Eguren, Walter Gargano, Diego Pérez e Jorge Martínez

Atacantes: Diego Forlán, Sebastián Fernández, Rodrigo López, Luis Suárez, Sebastián Abreu e Edinson Cavani

CONVOCADOS PARA COPA DO MUNDO NA ÁFRICA DO SUL:

Goleiros: Juan Castillo, Fernando Muslera e Martín Silva

Defensores: Martín Cáceres, Mauricio Victorino, Diego Lugano, Diego Godín, Andrés Scotti e Jorge Fucile

Meias: Alvaro Pereira, Maximiliano Pereira, Alvaro Fernández, Sebastián Eguren, Walter Gargano, Diego Pérez, Egidio Arévalo Ríos, Ignacio González e Nicolás Lodeiro

Atacantes: Diego Forlán, Sebastián Fernández, Luis Suárez, Sebastián Abreu e Edinson Cavani


ELENCO CAMPEÃO DA COPA AMÉRICA NA ARGENTINA:

Goleiros: Juan Castillo, Fernando Muslera e Martín Silva

Defensores: Martín Cáceres, Mauricio Victorino, Diego Lugano, Diego Godín, Andrés Scotti e Sebastian Coates

Meias: Alvaro Pereira, Maximiliano Pereira, Alvaro González, Sebastián Eguren, Walter Gargano, Diego Pérez, Egidio Arévalo Ríos, Cristian Rodriguez e Nicolás Lodeiro

Atacantes: Diego Forlán, Abel Hernández, Luis Suárez, Sebastián Abreu e Edinson Cavani

Comparando os elencos, temos que 16 dos 23 campeões sulamericanos estavam presentes nos jogos contra a Costa Rica pela repescagem. Já se a comparação for feita com a equipe quarta colocada na Copa do Mundo apenas Fucile, Alvaro Fernández, Ignacio González e Sebastian Fernández deram lugar a Coates, González, Rodriguez e Hernández. Algo importante a se destacar é que assim como Espanha e Alemanha, a Celeste possui uma equipe com média de idade baixa e dessa forma a maioria desses jogadores estará no Brasil em 2014. Somado a este excelente grupo, novos valores podem surgir das categorias de base (a seleção sub-20 já se classificou para os Jogos Olímpicos de 2012 e a sub-17 é atual vice-campeã mundial).

O Uruguai é a maior força da América do Sul, pode ser considerada uma das maiores equipes do futebol mundial e já não é sonho pensar em nova conquista de Copa do Mundo dentro do Maracanã.

Para finalizar apenas dois comentários sobre a final:

- Como jogam Suárez e Fórlan! Não apenas pelos belos gols (o terceiro uma pintura com participação de González e Cavani). A visão de jogo e posicionamento do primeiro é algo que se encontra em pouquíssimos atacantes no mundo, já o segundo é o craque deste time! Fórlan joga pelo time e nem parece ser o grande nome desta equipe. Aplica-se como todos os outros e quase todas as jogadas do time passam por ele de alguma forma.

- As faltas cometidas por Pérez, Cáceres e Maxi Pereira ainda no primeiro tempo (e que lhe renderam cartões amarelos) são lances que fazem parte do futebol e uma bela forma de intimidar o adversário. Algo que os uruguaios fazem com destreza! No Brasil isso é considerado quase um crime, um jogador que demonstra um “pouco mais de vontade” é quase crucificado (vide o clima que criaram para Felipe Melo até culminar em sua expulsão contra a Holanda). Não vejo nenhum jogador uruguaio fazendo firulas, assim como não vejo nenhum brasileiro com raça.

Parabéns, Uruguai!