terça-feira, 19 de julho de 2011

O Caso Adílson Batista

Muitas palavras de rejeição ecoaram no Morumbi assim que Adílson Batista foi anunciado como o novo técnico do São Paulo, no último sábado. Alguns criticavam sua semelhança com o último treinador da equipe, Paulo César Carpegiani, no que se diz respeito às invenções em campo que acabaram rotulando-o como “Professor Pardal”, alcunha criada por ele próprio Adílson Batista. Outros desferiam impropérios à sua pessoa, acusando-o de ter fracassado nos seus últimos três trabalhos, respectivamente Corinthians, Santos e Atlético-PR. Existiam alguns ainda que apontassem a sua incompetência em vencer campeonatos de relevância, mencionando o fiasco da derrota cruzeirense em pleno Mineirão lotado na final de 2009.

Rótulos negativos atrás de rótulos negativos o circundam neste início de trabalho, por isso resolvi aprofundar uma análise destes últimos trabalhos de Adílson Batista.

Corinthians

Sua campanha no comando no Corinthians apresentou o seguinte retrospecto:

Palmeiras 1 x 1 Corinthians -> Empate

Corinthians 1 x 0 Flamengo -> Vitória

Avaí 3 x 2 Corinthians -> Derrota

Corinthians 3 x 0 São Paulo -> Vitória

Cruzeiro 1 x 0 Corinthians -> Derrota

Vasco 2 x 0 Corinthians -> Derrota

Corinthians 5 x 1 Goiás -> Vitória

Atlético-PR 1 x 1 Corinthians -> Empate

Corinthians 0 x 1 Grêmio -> Derrota

Fluminense 1 x 2 Corinthians -> Vitória

Corinthians 3 x 0 Gr. Prudente -> Vitória

Santos 2 x 3 Corinthians -> Vitória

Internacional 3 x 2 Corinthians -> Derrota

Corinthians 1 x 1 Botafogo -> Empate

Corinthians 2 x 2 Ceará -> Empate

Atlético-MG 2 x 1 Corinthians -> Derrota

Corinthians 3 x 4 Atlético-GO -> Derrota

Resumo da passagem:

17 jogos

7 Vitórias

4 Empates

6 Derrotas

Aproveitamento: 49%

No Corinthians, pegou o time de Mano na rodada número 12 em primeiro lugar com 1 ponto de vantagem em relação ao segundo colocado Fluminense. Foi demitido do time na rodada de número 29, entregando o time na segunda posição, 5 pontos atrás do líder Cruzeiro.

Se considerarmos o trabalho como um todo, Adilson teve um aproveitamento baixo de pontos. Como já foi mencionado em um post anterior do nosso companheiro Felipe Gomes, “à exceção do campeonato de 2003, o que se percebe é que o campeão brasileiro beirou sempre em torno dos 65% de aproveitamento (a média excluindo esse ano é de 64,5%).” -> confira aqui

Em 2003, o aproveitamento do campeão foi de 58,8%. Logo, definitivamente 49% está longe ser um aproveitamento de um time campeão. No entanto, vale destacar que até a rodada 24, o time do Corinthians comandado por Adílson apresentou um aproveitamento de 66,7%, com 4 vitórias em 5 jogos em casa, além de 2 vitórias valiosas fora de casa, uma sobre o Santos e outra sobre o concorrente direto ao título Fluminense.

Fato é que nas próximas 5 rodadas o time do Corinthians sucumbiu e entrou um uma descendente, conquistando apenas 2 pontos de 15 disputados. Considerando a derrota fora de casa para o Inter e para o Atlético-MG como resultados normais, e também colocando o empate em casa contra o Botafogo como um tropeço comum, vamos analisar as escalações dos confrontos contra o Ceará e Atlético-GO em casa, confrontos que deveriam ser vencidos obrigatoriamente por qualquer time que se considere candidato ao título.

Contra o Ceará (4-2-2-2): Julio Cesar; Alessandro (Defederico), Thiago Heleno, Paulo André e Roberto Carlos; Jucilei e Edu (Danilo); Paulinho e Jorge Henrique; Iarley e Bruno César.

Contra o Atlético-GO (4-4-2): Júlio César; Alessandro, Thiago Heleno, William (Chicão) e Castán; Paulinho, Moacir (Defederico), Jucilei e Bruno César; Iarley e Sousa (William Morais).

Podemos observar os dois zagueiros reservas contra o Ceará, um Leandro Castán improvisado de lateral-esquerdo contra o Atlético-GO, e principalmente a ausência de Elias, Ronaldo e Dentinho, jogadores fundamentais para a campanha inicial de Mano Menezes.

Agora vamos à passagem que mais me intrigou, a do Santos.

Santos

Adílson Batista se apresentou no Santos no dia 06 de dezembro de 2010, recebendo respaldo e confiança da diretoria para iniciar o trabalho para a temporada de 2011.

Sua campanha no Santos apresentou o seguinte retrospecto:

Linense 1 x 4 Santos -> Vitória

Santos 3 x 0 Mirassol -> Vitória

Gr. Barueri 2 x 4 Santos -> Vitória

Santos 3 x 3 São Caetano -> Empate

Santos 2 x 0 São Paulo -> Vitória

Ponte Preta 2 x 2 Santos -> Empate

Santo André 1 x 1 Santos -> Empate

Santos 2 x 0 Noroeste -> Vitória

Deportivo Tachira 0 x 0 Santos -> Empate

Corinthians 3 x 1 Santos -> Derrota

Santos 1 x 1 São Bernardo -> Empate

Resumo da passagem:

11 jogos

5 Vitórias

5 Empates

1 Derrota

Aproveitamento: 61%

Depois de apenas 11 jogos, Adílson foi demitido após um empate na Vila Belmiro contra o São Bernardo. O aproveitamento de 61% é um número que já fez um campeão brasileiro, mas se tratando de um Campeonato Paulista é um aproveitamento relativamente baixo. Ainda assim, nada justifica a demissão de um técnico após apenas 9 jogos. Não há técnico no mundo que consiga desenvolver um trabalho excepcional em apenas 9 jogos. Um time pode até ter bons resultados, mas será mais mérito dos jogadores do que do técnico.

Fora o aproveitamento, o fato que mais me chama a atenção neste caso é a participação das duas maiores estrelas santistas, Neymar e Ganso, nesta curtíssima passagem de Adílson pelo time da baixada. Neymar esteve presente em 3 de 11 jogos disputados (27%). Já Ganso esteve presente em 0 de 11 jogos.

Para efeito de comparação, levantei o histórico de Muricy Ramalho no comando do Santos.

Nos 6 jogos que restaram do Campeonato Paulista sob a liderança de Muricy, Neymar esteve presente em 5 de 6 jogos (ausente apenas na última rodada da fase de pontos corridos, contra o Paulista). Ganso, por sua vez, atuou em 4 de 6 jogos (ausente no último jogo contra o Corinthians na final e contra o Paulista).

Na Copa Libertadores, a diferença de "recursos" entre Muricy e Adílson foi ainda mais evidente. Nos 11 jogos sob o comando de Muricy Ramalho, Neymar teve participação em 10 de 11 jogos (91%). Já PH Ganso participou em 6 de 11 jogos (55%). Isso sem entrar nos méritos da participação ativa de Arouca e Danilo no time santista, fato este que não ocorreu no início da temporada de 2011.

Apesar do trabalho contestado de Adílson, ele somente pôde contar com Neymar durante 27% dos jogos que comandou e não pôde contar com Ganso em nenhum dos jogos. Mesmo jogando a maioria dos jogos sem seus 2 principais jogadores, ele apenas perdeu 1 jogo contra o Corinthians e abandonou o clube fortemente criticado.

Eis que surgiu a oportunidade de continuar o trabalho de Geninho no Atlético-PR, em abril deste ano.

Atlético-PR:

Escalação contra o Internacional no último jogo de Adílson (4-5-1): Renan Rocha; Wendell, Manoel, Fabrício e Marcelo Oliveira; Deivid, Cléber Santana (Nieto), Paulo Baier, Kléberson (Branquinho) e Madson; Edigar (Adaílton).

Salvo alguns bons jogadores em Manoel e Branquinho, o elenco do Atlético-PR é muito fraco e possui jogadores que não jogam em bom nível há um longo período (vide Cléber Santana e Kléberson). Dada essas limitações, me arrisco a afirmar que nem Guardiola ou José Mourinho conseguiria fazer esse time jogar em alto nível. Renato Gaúcho assumiu o time há 2 rodadas e ainda não conseguiu vencer (empate com o Avaí em casa e derrota para o Vasco fora de casa).

Conclusões

No Cruzeiro, Adílson assumiu o time na temporada de 2008, conquistou o Campeonato Estadual e terminou em terceiro lugar no Brasileirão, classificando o time para a Libertadores. Em 2009, ganhou novamente o Campeonato Mineiro e perdeu a fatídica final da Libertadores em casa para o Estudiantes de Verón. Ainda assim, conseguiu reerguer o time e desbancou o Palmeiras do G-4 para garantir a participação na Libertadores de 2010. Após novo fracasso na Libertadores, desta vez caindo para o São Paulo, anunciou sua saída no dia 3 de junho, após a sexta rodada do Campeonato Brasileiro.

Em 170 jogos pelo clube, Adilson obteve um ótimo aproveitamento de 64%, apenas 1% abaixo daquela média apontada para se consagrar campeão brasileiro.

Para efeito de comparação, o atual técnico da seleção, Mano Menezes, obteve aproveitamento de 59% na sua passagem pelo Grêmio e idênticos 64% em sua passagem pelo Corinthians, atuando durante longo período na série B do Campeonato Brasileiro.

Muricy? Em sua segunda passagem muito vitoriosa pelo São Paulo, teve 63% de aproveitamento. Pelo Fluminense, atingiu 61% de aproveitamento. Nas duas passagens somou 4 títulos de Campeão Brasileiro. Do outro lado da moeda, Muricy teve 49% de aproveitamento em sua passagem pelo Palmeiras, número idêntico à passagem de Adílson pelo Corinthians.

Tendo em vista estes números, é notável que até os técnicos mais vitoriosos passem por momentos conturbados e estão sempre sob questionamento, assim como no caso do Muricy que até este ano não tinha ganhado nenhuma Libertadores, apesar dos 4 Campeonatos Brasileiros acumulados.

Bons técnicos precisam de tempo para desenvolver seu trabalho. Tempo este que no Brasil é escasso. A torcida é imediatista. Os dirigentes são imediatistas. Falta paciência e compreensão por todos os lados. Aqui no Brasil trabalhos como o de Alex Ferguson e Arsène Wenger já teriam sido interrompidos há muito tempo.

Além de atuar no curto prazo, bons técnicos precisam de títulos. E títulos requerem tempo para ser construídos. Requer um elenco muito bem encaixado e um técnico que envolva o time na hora certa. Às vezes, até parece mágica por trás de um trabalho bem sucedido. É preciso ser vitorioso. É preciso ser a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo.

Muricy atua como treinador desde 1993, e só foi ganhar um Campeonato Estadual pelo Náutico em 2001. Brasileiro? Só em 2006. Libertadores? 2011. Adílson Batista começou sua carreira de técnico em 2001, 8 anos depois de Muricy. Em 2002, já ganhou seu primeiro título de Campeonato Estadual e em 2003 assumiu seu primeiro time de abrangência nacional, o Grêmio.

Adílson recebeu um voto confiança frente todas as controvérsias e contestações que o bombardeiam. No São Paulo, ele pode ter uma oportunidade ímpar para se reerguer no cenário nacional, ou então para manchar de vez sua imagem já muito danificada e poluída de desconfiança. Ele terá que conquistar o seu tempo no comando e a confiança dos jogadores, mas terá em suas mãos um bom elenco com jogadores velozes, de grande dinâmica e versatilidade, do jeito que ele mais gosta em um time. É um time que tem potencial para brigar pelo título. É uma oportunidade de ouro para Adílson Batista.

Agora só o tempo irá dizer se ele é o cara certo, na hora certa, no lugar certo.

4 comentários:

  1. Que análise, hein Mendes?! Agora sim! huahaua...

    Concordo com você, o Adilson já demonstrou ser um bom técnico, vale dar crédito pra esse trabalho dele.

    A questão da contratação dele é fácil de entender também: ele é a melhor opção que o mercado poderia oferecer.

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  2. Fantátisco! Muito bom mesmo! A riqueza de detalhes realmente o coloca como no nível de grandes técnicos.

    Só acho que não era hora de um técnico que venceu só estaduais! Mas isso é uma opinião minha (com todos os complementos enviados internamente) e não tira os méritos deste belo post.

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  3. Excelente post Fabinho!!!

    Que análise detalhista e ao mesmo tempo objetiva!

    É agora ou nunca para Adilson!

    Abraços!

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  4. Caro Fabio Mendes, que análise sólida e convincente!

    Creio que os são-paulinos devem dar um voto de confiança para o Adilson.

    Fazendo uma analise do seu trabalho nos clubes, apesar de ter sido um bom zagueiro, tem tido problemas em armar boas defesas e, em controvérsia, sabe montar um time ofensivo.

    Parabéns Fabinho! Isso é uma tese de doutorado, uma aula de futebol!

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